Economia

Pix virou ferramenta de golpe — e os bancos sabem disso há anos

Fraudes via Pix cresceram 280% desde 2022. Os bancos têm tecnologia para reduzir isso. Por que não usam? A resposta é mais simples — e mais irritante — do que você imagina.

Por Kaique Ferreira 11 de junho de 2025 Atualizado: 12 jun 2025 7 min de leitura

Em março de 2024, Roberta Silva, professora de 38 anos de Campinas, perdeu R$ 4.200 em menos de três minutos. Recebeu uma mensagem no WhatsApp de alguém se passando por seu banco, clicou em um link, digitou seus dados e viu o dinheiro desaparecer antes de perceber o que tinha acontecido. O banco disse que não poderia reembolsá-la porque ela havia "autorizado" a transação.

O caso de Roberta não é exceção. É a regra. Segundo dados do Banco Central, as fraudes via Pix somaram R$ 2,4 bilhões em 2024 — um crescimento de 280% em relação a 2022, primeiro ano completo de operação do sistema.

O que os bancos poderiam fazer

Existem pelo menos três tecnologias que reduziriam significativamente as fraudes via Pix e que os bancos poderiam implementar amanhã se quisessem. A primeira é a análise comportamental em tempo real: algoritmos que identificam padrões anômalos de transação — como um Pix de valor incomum para uma conta nunca antes usada, feito às 2h da manhã, logo após uma série de tentativas de login falhas.

A segunda é a confirmação por biometria para transações acima de determinado valor. Vários bancos já têm essa tecnologia para outros fins. Não a aplicam ao Pix porque adiciona fricção — e fricção reduz o volume de transações.

A terceira é o "período de carência" para transferências para contas novas: um delay de 30 minutos a 1 hora que permitiria ao usuário cancelar uma transação suspeita. O Banco Central chegou a discutir isso em 2023. A proposta foi arquivada após lobby do setor bancário.

"Os bancos fizeram o cálculo. O custo de implementar proteções robustas é maior do que o custo de reembolsar as fraudes — porque eles raramente reembolsam." — Especialista em segurança digital, que pediu anonimato por trabalhar com instituições financeiras

O que fazer se você for vítima

Se você cair em um golpe via Pix, a primeira coisa a fazer é registrar um boletim de ocorrência imediatamente — o prazo importa para qualquer ação judicial posterior. Em seguida, conteste a transação no aplicativo do banco e, se negado, registre reclamação no Banco Central (Registrato) e no Procon.

O Superior Tribunal de Justiça tem decidido de forma crescente a favor dos consumidores em casos de fraude via Pix, especialmente quando há indícios de que o banco não adotou medidas razoáveis de segurança. Não aceite o primeiro "não" do banco como resposta final.

E enquanto isso, o sistema que deveria democratizar o acesso financeiro continua sendo usado para tirar dinheiro de quem tem menos para perder.

Kaique Ferreira
Editor de Economia · MissBR Digital

Economista e jornalista. Escreve sobre finanças pessoais e macroeconomia de um jeito que não dá vontade de dormir. Já foi vítima de golpe de Pix — por isso escreve sobre isso com raiva.

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