Saúde Mental

Burnout entre os 20 e os 30: quando o cansaço não é preguiça

Psicólogos registram aumento de 200% em atendimentos relacionados a esgotamento profissional em jovens adultos nos últimos três anos. O que está por trás disso — e o que fazer quando você chega no limite.

Por Nathalia Cruz 9 de junho de 2025 Atualizado: 10 jun 2025 8 min de leitura

Mariana Fonseca tinha 27 anos quando percebeu que não conseguia mais se levantar da cama para ir trabalhar. Não era depressão — pelo menos não ainda. Era uma exaustão diferente, que não passava com sono, que não melhorava nos fins de semana, que havia se instalado de forma tão gradual que ela não sabia dizer exatamente quando tinha começado.

"Eu acordava já cansada. Chegava no trabalho e ficava olhando para a tela sem conseguir fazer nada. Sentia que estava falhando em tudo, o tempo todo", conta ela, que trabalha como analista de marketing em uma startup de São Paulo.

O diagnóstico foi burnout. E Mariana não está sozinha.

Os números

Um levantamento do Conselho Federal de Psicologia divulgado em maio de 2025 mostrou que 68% dos psicólogos brasileiros registraram aumento significativo de pacientes entre 22 e 32 anos com queixas relacionadas a esgotamento profissional nos últimos três anos. O número de atendimentos nessa faixa etária cresceu 200% desde 2021.

O Brasil já é o segundo país com maior número de trabalhadores com burnout no mundo, atrás apenas do Japão, segundo dados da International Stress Management Association. Mas o que chama atenção agora é a faixa etária: não são mais só executivos de meia-idade. São pessoas que mal começaram a trabalhar.

Sinais de alerta — quando o cansaço é burnout

  • Exaustão que não melhora com descanso
  • Sensação de ineficácia mesmo quando você está trabalhando
  • Distanciamento emocional do trabalho e das pessoas
  • Dificuldade de concentração em tarefas simples
  • Irritabilidade fora do normal
  • Sintomas físicos sem causa médica aparente (dor de cabeça, problemas digestivos)

Por que está acontecendo agora

Há pelo menos três fatores que explicam o aumento entre jovens. O primeiro é a cultura da produtividade que dominou as redes sociais na última década — a glorificação do "hustle", a ideia de que descanso é preguiça, que você precisa ter um "side project" além do trabalho principal, que 24 horas não são suficientes para quem é ambicioso.

O segundo é a instabilidade do mercado de trabalho. Jovens que entraram no mercado durante ou após a pandemia enfrentaram demissões em massa, contratos temporários, trabalho remoto sem separação entre vida pessoal e profissional. A insegurança constante é um combustível poderoso para o esgotamento.

O terceiro — e talvez o mais subestimado — é a ausência de limites digitais. Notificações de trabalho às 22h. Grupos de WhatsApp da empresa que nunca param. A expectativa implícita de estar sempre disponível, mesmo quando você não está "oficialmente" trabalhando.

"Burnout não é fraqueza. É o resultado lógico de um sistema que trata pessoas como recursos infinitamente renováveis. O problema não é o indivíduo — é a estrutura." — Dra. Renata Oliveira, psicóloga clínica, São Paulo

O que fazer

A resposta honesta é: não existe solução rápida. Burnout leva meses para se instalar e leva meses para ser tratado. Mas existem passos concretos.

O primeiro é reconhecer. Muita gente passa meses em negação, tentando "se esforçar mais" quando o problema é exatamente o excesso de esforço. Nomear o que está acontecendo é o primeiro passo.

O segundo é buscar ajuda profissional. Psicólogo, médico, ou ambos. Burnout tem tratamento — e quanto mais cedo, melhor.

O terceiro é ter uma conversa difícil com o empregador. Isso é mais fácil de dizer do que de fazer, especialmente em um mercado de trabalho instável. Mas ignorar o problema raramente funciona — e as consequências de não tratar são piores do que o desconforto da conversa.

Mariana ficou dois meses de licença médica. Voltou ao trabalho com horários diferentes, sem reuniões depois das 18h e com um acordo claro sobre disponibilidade fora do expediente. "Não foi fácil negociar. Mas foi a única coisa que funcionou."

Nathalia Cruz
Repórter de Comportamento · MissBR Digital

Psicóloga que virou jornalista. Cobre saúde mental, relações e tudo que acontece na cabeça das pessoas. Acredita que falar sobre saúde mental sem jargão clínico é um ato político.

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